Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124

Entre templos de mármore e mitos imortais, a Grécia e Roma revelaram que o divino não está distante do homem, mas vive em sua alma. Este artigo mostra como os antigos enxergaram nos deuses a própria imagem da humanidade.
A Grécia foi o berço da razão e também do encantamento. Ali o sagrado ganhou forma humana e o mito se tornou espelho da alma. Os deuses gregos não eram distantes nem inatingíveis, mas companheiros do homem em suas virtudes e fraquezas. Zeus, Hera, Atena, Afrodite e tantos outros representavam forças vivas da natureza e do espírito. Mircea Eliade ensina que o mito é a história verdadeira que fala dos tempos em que os deuses ainda caminhavam entre os homens. Ao narrar os mitos, o povo grego mantinha viva a lembrança de sua origem divina e a certeza de que o humano é reflexo do sagrado.
Na Grécia o homem aprendeu que o conhecimento é também forma de culto. A filosofia nasceu da mesma chama que acendia os altares. Sócrates, Platão e Aristóteles continuaram o trabalho dos poetas e sacerdotes ao buscar, pela razão, o que os mitos expressavam pela imaginação. O templo de Delfos, com a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”, resumia o espírito de toda uma civilização que acreditava que a sabedoria interior é o caminho para a união com o divino. O herói mítico e o filósofo compartilhavam a mesma jornada: vencer a ignorância e retornar à luz.
Os rituais gregos não separavam corpo e alma. A dança, o teatro, o esporte e a música eram expressões do sagrado em movimento. O culto à beleza não era vaidade, mas reverência à harmonia que reflete a perfeição do cosmos. A espiritualidade helênica celebrava a vida, a arte e o pensamento como dons divinos. Foi na Grécia que o homem começou a perceber que o divino habita dentro de si e que servir aos deuses é aperfeiçoar o próprio caráter.
Roma herdou essa herança e a transformou em religião do Estado. Os deuses gregos receberam novos nomes, mas o mesmo significado. Júpiter substituiu Zeus, Vênus assumiu o papel de Afrodite, Marte foi o guardião da força e da disciplina. O romano venerava o lar e a pátria como templos do sagrado. A religião romana era prática, voltada à ordem e à justiça, e cada gesto público tinha um valor espiritual. O culto aos deuses era também culto à lei, pois a harmonia do império refletia a harmonia do céu.
Com o tempo, a espiritualidade romana aproximou-se do monoteísmo e do misticismo oriental. Surgiram cultos como o de Ísis, Mitra e Cibele, que prepararam o solo para a vinda do cristianismo. Foi nesse ambiente de transformação que o homem ocidental começou a compreender que os deuses externos anunciavam um Deus interior. O politeísmo, longe de ser simples multiplicidade, representava a tentativa de expressar a totalidade do divino, impossível de ser contida em uma única face.
A Umbanda reconhece nessa fase da história o momento em que o homem despertou para a consciência de sua própria divindade. Quando os gregos afirmaram que o homem é a medida de todas as coisas, estavam sem saber proclamando uma verdade espiritual: cada ser é reflexo da força criadora. A mediunidade, a caridade e o culto aos Orixás continuam essa mesma busca de comunhão entre humano e divino. Assim como os antigos sacerdotes, o médium é aquele que aprende a servir à luz através do autoconhecimento e da ação equilibrada.
Grécia e Roma ensinaram que o sagrado também se revela na razão, na arte e na beleza. A fé pode ser cantada, dançada e pensada. O mito e a filosofia, o altar e o teatro, o templo e a praça são expressões diferentes do mesmo impulso que move a humanidade em direção à transcendência.