O Iluminismo e o positivismo religioso

Quando a razão acendeu sua luz sobre o mundo, a fé precisou aprender a dialogar com o pensamento. Este artigo reflete sobre o Iluminismo e o positivismo, movimentos que redefiniram a relação entre ciência, religião e espiritualidade.

O século XVIII ficou conhecido como o Século das Luzes. Após séculos de domínio religioso e guerras em nome da fé, a humanidade começou a voltar seu olhar para a razão e para a ciência. Filósofos, cientistas e pensadores passaram a buscar respostas não apenas no sagrado, mas na observação da natureza e na lógica do pensamento. O Iluminismo marcou o nascimento de uma nova confiança no intelecto humano e na capacidade de compreender o universo por meio da razão. A fé, porém, não desapareceu; ela foi desafiada a amadurecer.

Para os iluministas, o conhecimento libertava o homem da ignorância e do medo. O sagrado, até então entendido como mistério inacessível, passou a ser interpretado também como lei universal que podia ser estudada. Descartes, Voltaire e Rousseau, cada um à sua maneira, defenderam a liberdade de pensamento e a autonomia da consciência. A religião deixou de ser um sistema fechado e começou a ser vista como experiência ética e moral. O divino não era negado, mas reinterpretado como princípio que governa a ordem natural. Nascia, assim, o conceito de Deus como razão suprema, criador de um mundo regido por leis perfeitas.

O Iluminismo não foi um rompimento com o sagrado, mas uma tentativa de compreendê-lo por novas vias. Mircea Eliade lembra que o homem moderno, ao afastar-se do mito, não perdeu a necessidade do sagrado; apenas o expressou em outros símbolos, como a ciência e o progresso. A busca pela verdade continuou a ser, em essência, um ato religioso. A diferença é que o altar agora estava nos laboratórios e nas academias. A luz que iluminava o espírito passou a iluminar também o intelecto.

No século XIX, o positivismo consolidou esse impulso racional. Auguste Comte, seu principal representante, acreditava que a humanidade havia passado por três estágios: o teológico, o metafísico e o científico. Para ele, o conhecimento verdadeiro era aquele que podia ser comprovado. A religião foi reinterpretada como forma primitiva de compreensão do mundo, substituída pelo pensamento científico. Contudo, o próprio Comte criou uma “religião da humanidade”, mostrando que nem mesmo o racionalismo extremo pôde eliminar a necessidade de um sentido espiritual. A fé se transformou, mas não desapareceu.

Durkheim observou que mesmo nas sociedades modernas, onde o racionalismo predomina, a vida coletiva continua impregnada de valores sagrados. A ciência, ao desvendar as leis do universo, desperta a mesma admiração que os antigos sentiam diante dos deuses. Max Weber chamou isso de “desencantamento do mundo”, mas reconheceu que o homem continua buscando significados que ultrapassam a lógica. A espiritualidade, ainda que silenciosa, resiste no íntimo de cada ser.

A Umbanda vê o Iluminismo e o positivismo como etapas necessárias da evolução humana. A fé precisa da razão para não se tornar fanatismo, e a razão precisa da fé para não se tornar orgulho. O equilíbrio entre ambas é o caminho da sabedoria. Quando Allan Kardec codificou o Espiritismo no século XIX, uniu o pensamento científico ao estudo do espírito, abrindo espaço para uma nova compreensão do sagrado que integra fé, ciência e filosofia. Essa visão influenciou profundamente a Umbanda, que também preza pelo estudo, pela disciplina e pelo amor como formas de iluminação.

A verdadeira luz não é apenas a da razão nem apenas a da fé, mas a que nasce quando ambas se encontram. O Iluminismo ensinou o homem a pensar, o positivismo o ensinou a comprovar, e a espiritualidade o ensina a sentir. O progresso sem amor é vazio, e a fé sem entendimento é cega. A sabedoria consiste em unir mente e coração na mesma direção.