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Da sabedoria dos povos iorubás, bantos e ewê-fon nasceu uma visão do mundo onde natureza, ancestralidade e divindade são uma só realidade. Este artigo apresenta as três grandes matrizes espirituais africanas que sustentam a fé e a essência da Umbanda.
A África é um continente de muitas vozes, mas todas cantam o mesmo sagrado. Entre suas incontáveis nações e tradições, três famílias culturais se tornaram pilares da espiritualidade africana que chegou ao Brasil: os iorubás, os bantos e os ewê-fon. Suas diferenças linguísticas e simbólicas não as separam, pois compartilham a mesma compreensão da vida como expressão divina. Nessas tradições, o mundo é corpo vivo de Deus e cada ser é manifestação do axé, a energia que move e sustenta a criação.
Os iorubás, originários da região que hoje abrange Nigéria, Benin e Togo, desenvolveram uma das teologias mais complexas da humanidade. Para eles, existe um Deus supremo, Olorum, criador do universo, que se manifesta através dos Orixás, forças divinas que regem os elementos da natureza e as virtudes humanas. Cada Orixá é um princípio cósmico e uma presença viva que se revela nas águas, nos ventos, nas montanhas e nos corações. A palavra e o som são veículos do sagrado, e o tambor é seu altar. No culto iorubá, o homem celebra a vida em harmonia com o invisível, reconhecendo que servir ao Orixá é servir à própria essência da criação.
Os povos bantos, vindos das regiões de Angola, Congo e Moçambique, trouxeram uma espiritualidade centrada na força vital que une todos os seres. Para eles, o sagrado está na continuidade da vida e na presença dos ancestrais. A palavra “bantu” significa “pessoas”, e sua filosofia gira em torno da comunidade, da partilha e da união. Suas práticas rituais valorizam a cura, o equilíbrio e o respeito à natureza. O culto aos Inkices, divindades ligadas aos elementos naturais, manifesta o mesmo princípio de reverência que se vê entre os iorubás. O fogo, a água e a terra são expressões do poder divino, e o tambor é o meio pelo qual a alma se comunica com o mundo invisível.
Os povos ewê-fon, localizados na antiga região do Daomé, atual Benin, formaram o sistema conhecido como culto aos Voduns. Essa tradição, marcada por profundo simbolismo e sabedoria, compreende o mundo como campo de forças em constante interação. Os Voduns são entidades que personificam energias universais e ligam o humano ao divino. A harmonia é a meta suprema, e a desordem é o que se busca evitar por meio do equilíbrio espiritual. A arte, a dança e os ritos de iniciação são caminhos de reconexão com o sagrado. Essa visão deu origem a muitos elementos presentes nas religiões afro-diaspóricas das Américas.
Apesar das diferenças, iorubás, bantos e ewê-fon compartilham valores essenciais: o culto aos ancestrais, a sacralidade da natureza, o poder da palavra e a importância do equilíbrio espiritual. Suas teologias se encontram na ideia de que o divino não está distante, mas pulsa em cada forma de vida. O respeito ao tempo, à terra e aos ciclos naturais é expressão da sabedoria que ensina que tudo está interligado. Mircea Eliade observou que nessas religiões o sagrado não é ruptura do cotidiano, mas sua plenitude. Durkheim viu nelas a base social da religiosidade comunitária. Max Weber destacou sua ética de coexistência e respeito mútuo como modelo de civilização espiritual.
A Umbanda é o ponto de reencontro dessas três raízes. Dos iorubás herdou o culto aos Orixás e a estrutura simbólica do axé. Dos bantos, recebeu o amor à simplicidade, a sabedoria dos ancestrais e o poder da palavra que cura. Dos ewê-fon, assimilou o sentido profundo da harmonia e do equilíbrio entre forças opostas. Ao reunir essas tradições sob a luz do Cristo e a inspiração dos guias espirituais, a Umbanda transformou a dor da diáspora em canto de fé e reconciliação.
As vozes da África ecoam ainda hoje em cada atabaque, em cada reza e em cada gesto de caridade. A unidade do sagrado é o que une todos os povos e religiões.