O mito e o tempo sagrado: o eterno retorno

Mircea Eliade revelou que o mito é mais do que narrativa simbólica: é a lembrança viva da origem e o caminho para o reencontro com o sagrado. Este artigo explica como o mito recria o tempo primordial e como, na Umbanda, ele se manifesta em cada rito, ponto cantado e narrativa espiritual.

O mito é a primeira forma de conhecimento do homem. Antes de escrever, o ser humano contava histórias para explicar o mundo, as forças da natureza e o mistério da vida. Para Eliade, o mito não é fantasia, mas memória do espírito. É o relato do momento em que o sagrado se manifestou no tempo. Cada mito fala de um princípio, de um começo absoluto, e ao recordá-lo o homem religioso revive o instante da criação. O mito é, portanto, a ponte entre o tempo humano e o tempo divino.

Eliade chamava o tempo do mito de tempo sagrado ou tempo primordial. É o tempo que não corre, não envelhece, não se perde. É o tempo circular, eterno, que sempre retorna à origem. Ao realizar um rito ou contar um mito, o homem rompe o tempo cronológico e volta a participar do tempo dos deuses. O sagrado não é lembrado, é revivido. O rito é o meio pelo qual o homem recria o começo e se reconecta à ordem divina. Assim, cada festa, cada iniciação e cada canto são, na verdade, recriações do ato original da criação.

Na vida moderna, o tempo tornou-se linear e fragmentado. O homem corre, trabalha e envelhece sem sentir o sentido das horas. Esqueceu-se de que o tempo, para o espírito, é espaço de revelação. Eliade nos lembra que o mito é o antídoto para esse esquecimento. Ele nos devolve à totalidade e nos ensina que o verdadeiro presente é o reencontro com a origem. O homem não vive apenas o agora físico, mas participa do agora eterno que existe desde o princípio dos tempos.

Na Umbanda, o mito vive em cada gira. Quando o tambor soa, o tempo comum se desfaz. Os pontos cantados recordam os feitos dos Orixás, e o médium, ao incorporar, revive as forças primordiais da criação. A cada ritual, a história se reinicia. O caboclo que pisa no chão é a memória viva da natureza que criou o mundo. O preto-velho que aconselha é o eco da sabedoria ancestral que moldou a alma humana. A Umbanda não conta mitos para explicar: ela os vivencia. Sua liturgia é o eterno retorno à origem, o reencontro do homem com o sagrado.

O mito nos lembra que a vida é ciclo. Tudo nasce, cresce, morre e renasce. Não há fim, apenas transformação. Por isso, a morte não é ruptura, é retorno. O espírito volta ao tempo divino para preparar-se para novas experiências. Essa visão libertadora permeia tanto a filosofia de Eliade quanto a doutrina da Umbanda. Ambas ensinam que lembrar o sagrado é voltar à pureza do princípio, onde não há separação entre o homem e Deus, entre natureza e espírito, entre passado e eternidade.

O eterno retorno é o coração do mito. Ele não nos faz fugir do mundo, mas nos devolve ao sentido da existência. Cada rito de Umbanda, cada canto e cada reza são convites para que o homem moderno, perdido no tempo, reencontre o sagrado que ainda pulsa no centro da criação.