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Mircea Eliade mostrou que o espaço sagrado é o ponto onde o céu toca a terra e o homem reencontra o divino. Este artigo reflete sobre o significado espiritual do centro do mundo e revela como o congá, o cruzeiro e o terreiro representam, na Umbanda, esse eixo de união entre o humano e o eterno.
O homem antigo não via o espaço como simples extensão física. Para ele, existiam lugares onde o invisível se tornava palpável, onde o sagrado se manifestava com mais intensidade. Esses lugares eram centros do mundo, pontos de ligação entre o céu, a terra e o submundo. Ali se construíam templos, altares e cidades. Mircea Eliade chamou esse ponto de axis mundi, o eixo do universo. É através dele que o homem se orienta espiritualmente e compreende sua posição dentro do cosmos.
Segundo Eliade, o espaço profano é homogêneo, igual e indiferente. Mas o espaço sagrado é o que foi consagrado pela presença divina. Ele rompe a uniformidade e cria ordem onde antes havia caos. Ao escolher um lugar para o culto, o homem recria o centro do mundo. Todo templo é uma repetição simbólica do primeiro ato da criação, quando Deus separou a luz das trevas e deu sentido ao vazio. Por isso, o espaço sagrado é o ponto de nascimento do universo e o lugar de renascimento da alma.
Cada cultura criou sua forma de representar o centro. Para os antigos povos orientais, era a montanha sagrada; para os hebreus, o Monte Sinai; para os hindus, o Monte Meru; para os cristãos, o Calvário. O centro é sempre o lugar da revelação, o ponto onde o homem se aproxima de Deus. Eliade ensina que o espaço sagrado não é apenas geográfico, mas interior. O verdadeiro centro do mundo está dentro do coração do homem que desperta para o divino.
Na Umbanda, esse princípio se manifesta de forma viva e concreta. O congá é o axis mundi do terreiro. Ele é o altar que representa o universo em harmonia. Cada imagem, vela e elemento ritual está disposto segundo leis simbólicas que conectam o visível ao invisível. Diante do congá, o médium se alinha ao cosmos e se torna instrumento da vontade divina. O centro do terreiro é o ponto onde o céu desce e a terra se eleva. É ali que o tambor abre o caminho, que as linhas de força se cruzam e que o homem se reencontra com sua origem espiritual.
O espaço sagrado da Umbanda não se limita ao templo. Ele se expande para a natureza, onde cada elemento é extensão do altar. A cachoeira é o congá de Oxum, o mar é o templo de Yemanjá, a mata é o santuário de Oxóssi, e a encruzilhada é o altar de Exu. Cada um desses lugares é centro do mundo porque é ponto de contato com o divino. A Umbanda, assim como Eliade descreve, devolve ao homem a percepção de que o sagrado está em toda parte.
O homem moderno vive descentrado. Perdeu o eixo e, com ele, o sentido. O espaço sagrado, seja o congá do terreiro ou o altar interior, é o caminho de retorno ao equilíbrio. Ele nos recorda que não estamos perdidos em um universo indiferente, mas inseridos em uma ordem viva, regida pelo amor divino. O centro do mundo não é um lugar distante: é o instante em que reconhecemos Deus presente no aqui e agora.
O sagrado começa quando o homem reencontra o seu centro. Quando a alma volta a esse ponto, tudo se alinha. O tempo desacelera, o caos se ordena e o espírito respira. O centro do mundo é o coração desperto.