Oxalá: o verbo criador e a luz

A Linha de Oxalá representa, na Umbanda, o princípio criador e a vibração primordial da fé consciente que sustenta a ordem do universo. Este artigo propõe uma leitura teológica de Oxalá como eixo da criação e expressão do verbo divino em ação, revelando sua função como força de integração, serenidade e orientação espiritual segundo o pensamento de W. W. da Matta e Silva.

Na teologia da Umbanda, Oxalá não é compreendido como uma divindade personificada, mas como o princípio primeiro da criação, a irradiação original da vontade divina que sustenta e organiza toda a existência. Ele representa a fé em sua forma mais elevada, não como crença abstrata, mas como força ativa que mantém a coesão do universo. Em Oxalá, a Umbanda reconhece o ponto de unidade a partir do qual todas as demais manifestações espirituais se desdobram.

Segundo a leitura teológica de W. W. da Matta e Silva, Oxalá é o eixo central da criação, a vibração primordial que precede e atravessa todas as outras linhas da Umbanda. Não se trata de superioridade hierárquica no sentido humano, mas de anterioridade ontológica. Oxalá é o princípio que unifica, enquanto as demais linhas especializam e aplicam a lei divina na diversidade da vida. Sua presença não se impõe por força, mas se revela como ordem silenciosa que sustenta o equilíbrio entre espírito e matéria.

A Linha de Oxalá manifesta a fé como estado de consciência. Essa fé não é cega nem dependente de promessas, mas nasce da compreensão íntima de que a criação obedece a uma inteligência amorosa. Oxalá não exige submissão, inspira confiança. Sua vibração conduz o ser humano à serenidade, à reflexão e à elevação do pensamento. É nessa dimensão que a Umbanda compreende a fé como fundamento da evolução espiritual, não como dogma, mas como alinhamento interior com a vontade divina.

Matta e Silva ensina que a atuação de Oxalá se estende a todos os planos da existência, mantendo a coesão das forças universais e permitindo que a vida se organize segundo princípios de harmonia e justiça. Nenhuma consciência evolui sem entrar em sintonia com essa vibração, pois é ela que purifica, integra e orienta. A luz de Oxalá não confronta, esclarece. Não constrange, acolhe. Ela atua de forma contínua, silenciosa e transformadora, conduzindo a alma ao reconhecimento de sua origem divina.

Na simbologia da Umbanda, a cor branca associada a Oxalá não representa vazio, mas plenitude. O branco contém todas as cores, assim como Oxalá contém em si todas as possibilidades da criação. Essa simbologia expressa a totalidade e a transcendência, indicando que a fé verdadeira não fragmenta, mas integra. Quando o ser humano se alinha à vibração de Oxalá, seu pensamento se organiza, sua palavra se purifica e sua ação se torna coerente com os princípios do amor universal.

Os espíritos que atuam sob a Linha de Oxalá exercem funções ligadas à orientação moral, à elevação mental e à harmonização espiritual. Sua atuação não se caracteriza pela intensidade emocional, mas pela clareza e pela serenidade que irradiam. No ambiente do terreiro, a vibração de Oxalá se manifesta como silêncio interior, pacificação dos conflitos e reorganização do campo espiritual. Não é uma presença que se anuncia, mas que se sente. Sua força é sutil, mas profundamente transformadora.

Oxalá é também compreendido como o verbo criador, a palavra divina que dá origem à vida e sustenta a ordem do cosmos. Essa compreensão dialoga com a tradição bíblica ao afirmar que a criação se realiza pela palavra e pela intenção consciente. Na Umbanda, esse princípio é vivido como responsabilidade espiritual. O ser humano cria continuamente por meio de seus pensamentos, palavras e ações. Quando age em consonância com o amor e a justiça, ele manifesta a vibração de Oxalá em sua própria existência.

A fé ensinada por Oxalá não promete soluções imediatas nem privilégios espirituais. Ela convida à confiança no tempo, à paciência diante dos processos e à vivência do amor como prática cotidiana. Sua força não se expressa no espetáculo, mas na constância. Oxalá transforma sem ruído, educa sem imposição e sustenta sem exigir reconhecimento. Sua presença é percebida como luz que acalma, orienta e integra.

A Umbanda reconhece em Oxalá o símbolo do Cristo interno, não como figura histórica exclusiva, mas como princípio universal de amor, consciência e unidade. Encontrar Oxalá é reencontrar o ponto de equilíbrio entre fé e razão, entre espírito e vida concreta. É reconhecer que a luz divina não está distante, mas habita silenciosamente cada consciência disposta a viver com verdade.