Para Eliade, o sagrado nunca desaparece. Ele apenas muda de forma, adaptando-se à linguagem e à cultura de cada povo. A história das religiões mostra que o divino se reinventa para continuar sendo compreendido. Quando o homem moderno acreditou ter separado o sagrado do mundo, ele apenas o deslocou para novas expressões. O mesmo princípio que um dia habitou os templos da Índia, as pirâmides do Egito e os altares gregos, hoje vibra nos terreiros de Umbanda, nas palmas que acompanham os pontos, na fé que se expressa em simplicidade e caridade.
A Umbanda é a confirmação viva daquilo que Eliade ensinou: que o sagrado é indestrutível. Surgida no Brasil em 1908, ela reúne elementos africanos, indígenas, espíritas e cristãos, e os transforma em linguagem espiritual acessível a todos. Cada ritual, cada vela e cada canto são hierofanias — manifestações do sagrado no mundo. O terreiro é o espaço onde o homem volta a sentir o universo como templo. Ele entra profano e sai sagrado, porque ali reencontra o sentido de pertencimento à criação.
Eliade afirmava que o homem religioso é aquele que vive a realidade com profundidade simbólica. Essa é a essência da Umbanda. O congá é o centro do mundo, o tambor é a pulsação da vida, e o ponto riscado é o mapa espiritual do cosmos. As entidades são pontes vivas entre os planos, expressões de forças universais que atuam para educar, curar e equilibrar. A Umbanda não fala apenas de Deus, ela faz Deus agir por meio da caridade. O sagrado, nela, não é contemplação distante, mas movimento, trabalho e amor em ação.
Se Eliade estivesse no Brasil, veria na Umbanda uma religião exemplar do que ele chamou de religiosidade primordial. Nela, o homem moderno volta a unir fé e vida. O espaço do terreiro é uma recriação do eixo cósmico, o axis mundi, que liga céu e terra. O rito, a música e o corpo tornam-se instrumentos de revelação. A Umbanda devolve ao sagrado sua dimensão humana, mostrando que o divino não está fora, mas entre nós. A natureza, o gesto, a palavra e o silêncio tornam-se templos vivos.
Na visão de Eliade, o homem moderno sofre porque perdeu a capacidade de viver o cotidiano como espaço sagrado. A Umbanda cura esse esquecimento. Ela ensina que o trabalho, a dor e o amor são partes do mesmo processo evolutivo. O sagrado não precisa de solenidade, mas de verdade. É no simples ato de acender uma vela, preparar um banho de ervas ou consolar um irmão que o espírito reencontra a eternidade. A fé umbandista é o retorno à consciência de que tudo o que vive participa de Deus.
O sagrado brasileiro é o sagrado que sorri, que canta e que acolhe. Ele não impõe, convida. Não exige, compartilha. A Umbanda é a teologia viva do amor universal, a prova de que o mistério não se perde, apenas se transforma em novas formas de luz. Como ensinou Eliade, o homem religioso é aquele que reconhece no mundo o reflexo do divino. O umbandista é esse homem. Ele caminha entre tambores e velas, entre mar e mata, carregando no coração o mesmo fogo que acendeu as primeiras orações da humanidade.





