Virar o ano no Brasil é mais do que um simples marco no calendário. É um ritual coletivo de passagem, carregado de gestos, símbolos e expectativas que se repetem geração após geração. Vestir branco, ir à praia, pular ondas, acender velas e fazer pedidos de paz e prosperidade são práticas tão naturalizadas que raramente são questionadas. No entanto, por trás dessa aparente neutralidade cultural, existe uma herança religiosa profunda, historicamente invisibilizada, que remete diretamente às religiões afro-brasileiras.
O uso do branco, por exemplo, não nasce como escolha estética nem como superstição popular. Nas tradições afro-brasileiras, especialmente na Umbanda, o branco possui significado espiritual preciso. Ele está associado a Oxalá, compreendido como princípio ordenador, força da ética, da disciplina espiritual e da universalidade. O branco representa neutralidade vibratória, igualdade entre os filhos da fé e alinhamento com leis superiores. Não se trata de ausência de cor, mas de síntese simbólica, expressando equilíbrio e compromisso espiritual.
A narrativa que atribui ao Caboclo das Sete Encruzilhadas, em 1908, a orientação para o uso do branco nos dias de culto integra o conjunto de mitos fundadores da Umbanda. Do ponto de vista acadêmico, essa tradição oral não deve ser interpretada como decreto histórico formal, mas como construção simbólica que expressa valores centrais da religião, como igualdade, simplicidade e rejeição a distinções sociais dentro do espaço sagrado. Ao vestir-se de branco, todos se apresentam como igualmente servidores dos orixás, independentemente de origem social, cor da pele ou posição econômica.
Da mesma forma, os rituais realizados à beira-mar na virada do ano não surgem como práticas aleatórias. Nas cosmologias africanas, especialmente entre povos de matriz iorubá e banta, a água representa passagem, purificação e comunicação entre mundos. O mar é espaço de travessia simbólica, de renascimento e de entrega. Iemanjá, associada às águas salgadas, à maternidade e à proteção, ocupa lugar central nesse imaginário, sendo tradicionalmente saudada com oferendas, flores, cânticos e pedidos de equilíbrio e amparo.
No Brasil urbano, sobretudo a partir do século XX, esses rituais deixaram de ser exclusivos dos terreiros e passaram a ocupar o espaço público. A Umbanda teve papel fundamental nesse processo ao se constituir como religião urbana, aberta, inclusiva e profundamente enraizada na experiência cotidiana das cidades. O ato de pular ondas, por exemplo, traduz simbolicamente a superação de ciclos, a abertura de caminhos e a renovação espiritual, conceitos estruturantes das religiões afro-brasileiras.
A partir das décadas de 1970 e 1980, esse conjunto de práticas passou por intenso processo de midiatização. O Réveillon de Copacabana transformou-se em espetáculo nacional, amplamente divulgado pela televisão e associado a artistas, celebridades e turistas estrangeiros. Nesse contexto, símbolos religiosos afro-brasileiros foram incorporados ao imaginário coletivo como imagens de celebração, paz e esperança. Contudo, essa incorporação ocorreu de forma fragmentada, esvaziando os sentidos religiosos originais.
O branco passou a ser interpretado como símbolo genérico de paz, desvinculado de Oxalá. As oferendas tornaram-se curiosidade folclórica. Os rituais foram reduzidos a tradição cultural ou superstição, perdendo sua dimensão sagrada. Trata-se de um processo conhecido como folclorização da religião, no qual práticas espirituais são absorvidas pela cultura dominante sem o reconhecimento de seus fundamentos históricos e teológicos.
Essa aceitação simbólica contrasta com a realidade vivida pelas religiões afro-brasileiras. Terreiros seguem sendo atacados, lideranças religiosas sofrem perseguições e práticas rituais continuam sendo alvo de estigmatização. A sociedade que celebra o branco na virada do ano frequentemente rejeita a Umbanda, o Candomblé e outras tradições de matriz africana quando elas se manifestam de forma consciente, organizada e religiosa.
Essa contradição não é fruto de incoerência individual, mas expressão de um racismo religioso estrutural. Aceitam-se os símbolos quando eles são descolados de seus sujeitos históricos, mas rejeitam-se os corpos, os territórios e as instituições que os produzem. Celebra-se o gesto, mas silencia-se a origem. Usa-se o branco, mas nega-se Oxalá. Pula-se a onda, mas criminaliza-se o culto a Iemanjá.
Reconhecer a presença das religiões afro-brasileiras no Réveillon não significa impor crença, mas assumir responsabilidade histórica. Significa compreender que a paz desejada na virada do ano não nasce do acaso, mas de tradições que resistiram à escravidão, à perseguição e ao apagamento cultural. Respeitar a origem desses rituais é passo fundamental para construir uma sociedade verdadeiramente plural, onde a fé que se celebra publicamente não seja a mesma que se marginaliza no cotidiano.
Que o Brasil continue vestindo branco, pulando ondas e pedindo paz. Mas que aprenda, finalmente, a respeitar a origem daquilo que pede.





