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Nas margens férteis do Nilo, o homem descobriu que o sagrado podia habitar o tempo, o corpo e a própria morte. Este artigo revela como o Egito transformou a fé em ciência e fez do culto aos deuses uma ponte entre a Terra e o além.
O Egito antigo é um dos capítulos mais grandiosos da história espiritual da humanidade. Em suas terras o homem deixou de temer os deuses e passou a compreendê-los como forças ordenadoras do universo. O Nilo, com suas cheias e vazantes, ensinou aos egípcios que a vida se renova em ciclos e que a morte é apenas uma passagem. A religião floresceu nesse ritmo natural e fez do Egito uma civilização em que fé, poder e conhecimento se tornaram indissociáveis.
Cada aspecto da natureza era visto como expressão de uma divindade. Rá simbolizava o sol que dá vida e renasce a cada manhã. Ísis representava o amor, a cura e a maternidade. Osíris era o senhor da morte e da renovação, aquele que ensinou que a vida continua no plano espiritual. Hórus, o falcão de olhar celeste, expressava o triunfo da luz sobre as sombras. Os deuses egípcios não eram entidades distantes, mas manifestações do próprio princípio divino que se revelava nos ciclos da criação. Mircea Eliade afirma que o Egito foi o primeiro povo a perceber o sagrado como ordem cósmica e a organizar sua vida espiritual em torno dessa harmonia.
Os templos e pirâmides não eram apenas monumentos, mas casas do espírito. Cada pedra erguida obedecia a um princípio simbólico. A geometria, a astronomia e a medicina nasceram da observação do divino na natureza. O sacerdote era também cientista e curador, pois acreditava que compreender o universo era servir aos deuses. Essa visão integrava matéria e espírito, razão e fé, e transformou o Egito em um templo a céu aberto. O conhecimento era sagrado e a sabedoria, o maior dos cultos.
Os rituais fúnebres expressavam a convicção de que a alma era imortal. O corpo era embalsamado para que o espírito pudesse reconhecê-lo na travessia ao outro plano. O Livro dos Mortos descrevia as etapas da jornada da alma e o julgamento diante de Maat, deusa da verdade e da justiça. O coração do homem era pesado em uma balança espiritual, e o destino do espírito dependia da pureza de suas ações. Essa crença é um dos mais antigos registros da lei moral que orienta todas as religiões posteriores. A Umbanda reconhece nesse ensinamento o mesmo princípio de justiça divina e de colheita espiritual descrito na lei de causa e efeito.
Durkheim via nas religiões antigas uma forma de organização coletiva que traduzia a alma do povo. No Egito, essa alma era a própria consciência do sagrado. O faraó, considerado filho de Rá, era o intermediário entre os planos e simbolizava a unidade entre o humano e o divino. A adoração aos deuses era também reverência à ordem da vida e à sabedoria que mantém o equilíbrio do mundo. Não havia separação entre religião e cotidiano, entre o templo e o campo, entre o trabalho e a oração.
Para a espiritualidade umbandista, o Egito representa o despertar do conhecimento sagrado. Foi ali que o homem compreendeu que o divino habita todas as formas e que servir à luz é uma forma de ciência espiritual. A Umbanda vê no Egito o reflexo do princípio de Maat, a lei universal de equilíbrio e retidão que também rege a conduta do médium e do trabalhador da caridade. Assim como os antigos sacerdotes, o médium moderno atua como ponte entre planos, guardião da verdade e servidor da harmonia.
O Egito ensinou que o corpo é templo e que a vida é rito. Cada nascer do sol era uma celebração da ressurreição divina. Essa consciência atravessou milênios e permanece viva na fé daqueles que buscam compreender a eternidade através da bondade e do amor. O culto aos deuses foi, na verdade, o culto à própria vida em sua forma mais elevada.