O Islã e o chamado à submissão a Deus

Entre o deserto e a revelação, o profeta Maomé anunciou a fé em um Deus único e compassivo. Este artigo reflete sobre o surgimento do Islã e a força espiritual que fez da submissão a Deus um caminho de paz e disciplina interior.

O Islã nasceu na Península Arábica no século VII e transformou o mundo espiritual de seu tempo. Maomé, homem simples e meditativo, retirava-se nas montanhas para orar e refletir. Em uma dessas noites, segundo a tradição, recebeu a revelação do anjo Gabriel, que o convidou a proclamar a palavra de Deus. Dessa experiência nasceu o Alcorão, livro sagrado que orienta a vida dos muçulmanos e resume a essência da fé: não há outro Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro.

A palavra Islã significa submissão, mas não no sentido de servidão, e sim de entrega confiante. O muçulmano não se curva por medo, mas por amor e reconhecimento de que a vontade divina é sempre justa. Essa fé ensina que a verdadeira liberdade nasce quando o homem se rende à sabedoria do Criador. Submeter-se a Deus é alinhar o coração com a harmonia do universo. É o mesmo movimento que as estrelas realizam em suas órbitas, obedecendo à ordem cósmica que as sustenta.

Os pilares do Islã expressam essa busca de equilíbrio entre fé e ação. A profissão de fé declara a unidade divina. A oração cinco vezes ao dia educa o espírito na constância e na presença. A caridade purifica a alma e ajuda os necessitados. O jejum no mês do Ramadã ensina disciplina e solidariedade, lembrando que o corpo e o espírito caminham juntos. A peregrinação a Meca simboliza o retorno à origem, o reencontro com a casa interior onde habita Deus. Em cada um desses gestos, a fé se torna prática viva e concreta.

Mircea Eliade descreve o Islã como uma religião que reconcilia transcendência e ação. O muçulmano vive sua fé no cotidiano, vendo em cada ato uma oportunidade de lembrar-se de Deus. O sagrado não está apenas nas mesquitas, mas no modo como o homem trata o outro e cumpre seus deveres. A religião, assim, torna-se exercício permanente de humildade. Durkheim observou que a força social do Islã vem da fraternidade, pois a comunidade dos crentes é unida pela oração e pela solidariedade. Max Weber via nessa disciplina espiritual a base de uma ética de responsabilidade e ordem interior.

O Alcorão proclama que Deus é misericordioso e compassivo. Essa mensagem, tantas vezes esquecida pelos olhares superficiais, é o coração da fé islâmica. A submissão a Deus é também confiança em Sua bondade. Orar é reconhecer que tudo vem d’Ele e que tudo retorna a Ele. Essa visão ecoa na Umbanda, que também ensina a entrega à vontade divina e a confiança nas leis espirituais. O médium, como o crente muçulmano, aprende a agir com humildade e fé, deixando que o amor de Deus guie suas palavras e ações.

A Umbanda vê no Islã a expressão do princípio universal da disciplina espiritual. O orixá Ogum, senhor da ordem e do cumprimento do dever, representa a mesma energia de retidão que sustenta o caminho do muçulmano. O chamado à submissão é, em essência, o chamado à harmonia com a vontade divina. Quem obedece à luz caminha em paz, mesmo no deserto da existência.

O Islã recorda à humanidade que a fé é ação e que a verdadeira força está na entrega. Servir a Deus é libertar-se do ego e caminhar com serenidade. O profeta ensinou que o homem é mais próximo de Deus quando ajoelha o coração. Essa sabedoria atravessa fronteiras e inspira todos os que buscam o sagrado com sinceridade.