Símbolos e ritos: linguagem universal

Mircea Eliade revelou que o símbolo é a palavra do sagrado e o rito é o seu gesto. Este artigo reflete sobre a função espiritual dos símbolos e dos rituais como pontes entre o visível e o invisível, e mostra como a Umbanda conserva essa linguagem viva do espírito em movimento.

O ser humano sempre precisou expressar o invisível. Desde as primeiras civilizações, ele criou imagens, gestos e palavras para comunicar o mistério que sentia, mas não podia descrever. Para Eliade, o símbolo é o instrumento essencial dessa comunicação. Ele traduz o inefável em forma compreensível. O símbolo é a chave que abre a porta entre os mundos. Onde a linguagem comum se cala, o símbolo fala. Ele não apenas representa, mas contém o sagrado, porque o torna presente.

Eliade ensina que o símbolo não é invenção humana, mas revelação. Ele surge quando o divino se manifesta no sensível. Uma pedra pode simbolizar a eternidade, o fogo a purificação, a água o renascimento, e o círculo a perfeição do cosmos. Cada forma, cor ou som é veículo de uma força espiritual. O símbolo não explica, desperta. Ele age na alma mais do que na razão. Por isso, o rito — que é a aplicação viva do símbolo — tem poder transformador. O rito faz o homem participar do ato divino que o símbolo anuncia.

O rito é a dramatização do mito e a atualização do sagrado. Ele transforma o tempo e o espaço, recriando o universo dentro de um gesto. Quando o médium risca um ponto, acende uma vela ou entoa um cântico, ele não está apenas repetindo uma tradição, mas ativando energias e realidades espirituais. Para Eliade, o rito é o instrumento pelo qual o homem reentra no tempo primordial da criação. Ele permite que a vida cotidiana volte a ter sentido, pois reintroduz o sagrado na existência.

Na Umbanda, os símbolos e os ritos são a própria linguagem da fé. A pemba traça no chão as linhas de força que organizam o campo espiritual do terreiro. As velas, com sua chama, elevam os pedidos e intenções ao plano sutil. O fumo do charuto e o aroma da defumação purificam os ambientes e os corpos sutis. Cada ponto cantado é uma fórmula vibratória que desperta energias e conecta médiuns, guias e Orixás. Tudo tem significado, tudo tem função, e nada é apenas forma. O rito é o pensamento do espírito expresso em gesto e som.

Eliade afirmava que, nas religiões vivas, o símbolo nunca se torna simples decoração. Ele continua a ser presença real. O homem moderno, ao perder o contato com os símbolos, perde também o sentido de sua própria alma. Por isso, as religiões tradicionais são guardiãs dessa memória espiritual. A Umbanda, ao unir rito, canto, cor e movimento, reensina o ser humano a se comunicar com o invisível de forma direta e sensível. O terreiro é uma escola de símbolos em ação.

O símbolo fala a todos porque fala à alma. Ele ultrapassa idiomas, culturas e dogmas. Por isso, Eliade o chamou de linguagem universal do espírito. A Umbanda conserva essa linguagem porque compreende que o sagrado precisa ser vivido, não apenas estudado. No ritual, o corpo ora, a mente silencia e o coração compreende. O símbolo é o verbo do divino, e o rito é sua canção.